Atrás

Objectivos

 

 

Os problemas ligados ao álcool têm vindo a assumir uma gravidade crescente. 

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), há cerca de 2.000 milhões de pessoas em todo o mundo que consomem regularmente bebidas alcoólicas.

No ano 2000, o consumo de álcool era responsável por quatro por cento da morbilidade a nível mundial, apenas inferior à associada ao tabagismo (4,1 por cento) e à hipertensão arterial. A OMS estima que, nesse ano, o alcoolismo tenha causado 1,8 milhões de mortes, o que corresponde a 3,2 por cento do total.

O consumo de álcool contribui mais do que qualquer outro factor de risco para a ocorrência de traumatismos, incapacidade prematura e morte nos países em desenvolvimento com baixa mortalidade. Relaciona-se com o surgimento e/ou desenvolvimento de numerosos problemas ou patologias agudas e crónicas de carácter físico, psicológico e social, constituindo, por isso, um importante problema de saúde pública.

A longo prazo, o consumo de grandes quantidades de bebidas alcoólicas – sobretudo se estiver associado a um mau estado nutricional – pode acarretar danos permanentes em órgãos vitais como o cérebro, o coração e o fígado.

Estudos recentes evidenciam que em Portugal há um consumo global de álcool preocupante, estimando-se que cerca de 500 mil pessoas sejam alcoólicas.

Os hábitos de consumo diferem sensivelmente entre homens e mulheres, mas os homens consomem mais e excedem-se mais do que as mulheres.

Como se define um alcoólico?

De acordo com a OMS, o alcoólico é todo o indivíduo a quem o consumo excessivo de álcool afecta o estado físico, a sua economia e o seu ambiente familiar e social.

O que é o alcoolismo?

O alcoolismo ou dependência de álcool é uma doença, frequentemente crónica e progressiva, que se caracteriza pelo consumo regular e contínuo de bebidas alcoólicas, apesar de recorrência repetida de problemas relacionados com o álcool.

Como se afere a taxa de alcoolemia?

Pela medição da quantidade de álcool existente no sangue em determinado momento. A taxa de 0,5 gramas por litro de sangue (prevista no Código da Estrada) atinge-se com dois ou três copos de cerveja. Note-se, porém, que há vários factores que influenciam a taxa de alcoolemia, pelo que a quantidade de álcool ingerida não tem o mesmo efeito em todas as pessoas. Ser mulher, ter baixo peso, estar doente ou fatigado são factores que aumentam a taxa de alcoolemia.

Como é que o álcool interfere no metabolismo?

O álcool é rapidamente absorvido pelo estômago e pelo intestino delgado. A presença de alimentos no estômago retarda a absorção do álcool neste órgão, mas o mesmo já não acontece em relação ao intestino, onde a absorção é muito mais rápida. Cerca de 30 a 90 minutos depois de ingerido, o álcool começa a ser absorvido pelo sangue (a velocidade desta absorção depende do teor e do grau de concentração de álcool da bebida ingerida) e a espalhar-se rapidamente através dos vasos sanguíneos, atingindo o coração, pulmões, rins e cérebro e todas as restantes partes do corpo.

A metabolização do álcool ocorre sobretudo no fígado, pela acção da enzima ADH. Quando o consumo é muito elevado ou frequente, ocorrem alterações no sistema enzimático.

Os rins, os pulmões e a pele são os principais órgãos de excreção do álcool.

Em geral, a redução dos níveis do álcool no sangue, após a ingestão de doses elevadas, é de 10 a 20 mg/100 ml de sangue/hora. Este valor é bem mais baixo quando o indivíduo em causa sofre de insuficiência hepática

Quais são os factores de risco de alcoolismo?

Nos adultos:

  • Antecedentes pessoais e história familiar relacionada com o alcoolismo. Está cientificamente demonstrado que há uma tendência genética, embora não necessariamente hereditária;

  • Ambiente sociocultural. A integração em famílias ou em meios sociais propensos ao consumo de álcool (inclusive por questões laborais – ter de frequentar festas, reuniões sociais, etc.), aumenta o risco do indivíduo consumir e vir a tornar-se dependente do álcool;

  • Situações imprevisíveis de rotura na vida quotidiana;

  • Distúrbios emocionais – pessoas deprimidas ou ansiosas têm maior propensão a criar dependência de substâncias psicoactivas, como o álcool, tabaco, entre outras.

Nos adolescentes:

  • Conflitos entre os pais, divórcio, separação ou abandono, de um ou de ambos os progenitores;

  • História de hiperactividade na infância;

  • Dificuldades de adaptação à escola;

  • Dificuldades de aprendizagem.

Como é que se fica dependente do álcool?

O processo de dependência do álcool desenvolve-se como o de qualquer outra dependência, como por exemplo em relação ao tabaco, às drogas e outras substâncias psicoactivas.

Começa-se por experimentar beber, depois bebe-se pontualmente e daí passa-se a beber com regularidade, até criar dependência. Para algumas pessoas é um processo relativamente rápido.

É, porém, importante distinguir um problema de alcoolismo de uma bebedeira ocasional. Até porque algumas pessoas ficam embriagadas (intoxicação) com a ingestão de doses muito pequenas de bebidas alcoólicas.

Quais são os sintomas do alcoolismo?

Há três factores importantes na identificação e configuração dos hábitos de bebida da pessoa: o volume de álcool ingerido durante um período de tempo, o volume de álcool ingerido numa só ocasião e as circunstâncias e contextos em que bebe.

  • Sentir grande necessidade de beber bebidas alcoólicas;

  • Incapacidade para parar de beber em determinada ocasião;

  • Síndroma da dependência;

  • Tolerância ao álcool.

Deve enfatizar-se também que alguns dos sintomas que caracterizam um alcoólico em fase inicial são normalmente percebidos primeiro pelos seus familiares, amigos e colegas de trabalho. Deve, pois, estar atento aos seguintes comportamentos e sintomas:

  • Beber muito em ocasiões sociais;

  • Amnésia ou blackouts frequentes – quando, no dia a seguir, acorda sem nenhuma memória ou recordação da noite anterior ou de ter ingerido álcool em excesso;

  • Se utiliza subterfúgios para esconder a bebida alcoólica, como usar garrafas ou embalagens de bebidas não alcoólicas ou esconder as garrafas para que ninguém à volta perceba;

  • Irritação e agressividade acompanhadas com declarações de rejeição da dependência da bebida ou mesmo que deixou de beber de uma vez por todas;

  • Medo, comportamentos obsessivos, sentimento de conspiração contra a sua pessoa;

  • Cansaço, insónias, disfunções sexuais, depressão, ansiedade estão muitas vezes ligados a problemas com o álcool, designadamente com o abuso ou dependência;

  • Fracturas, quedas, queimaduras no corpo ou mesmo convulsões sem causa aparente podem resultar do consumo abusivo de álcool.

É preciso ser-se alcoólico para se ter problemas relacionados com o álcool?

Não. O consumo excessivo de álcool numa só ocasião pode ter consequências sérias para a saúde de quem bebe e para terceiros. Uma percentagem elevada de acidentes de viação é causada por condutores ébrios e muitos acidentes têm consequências dramáticas para os próprios e para os terceiros envolvidos.

A embriaguez pode também ter consequências negativas de ordem social, como por exemplo, faltar ao trabalho, a uma entrevista de emprego ou quebra de qualquer compromisso previamente assumido.

Entre outras situações, o consumo moderado de álcool também é prejudicial durante a gravidez e quando se está a tomar medicamentos.

Como se diagnostica?

Pela avaliação clínica do indivíduo por parte do médico psiquiatra.

Se possível, é desejável que o paciente esteja acompanhado de um familiar ou de alguém que lhe seja próximo, cujo testemunho ou relato possa ajudar o profissional de saúde a obter mais informação sobre a condição do doente.

Há pacientes que, quando são avaliados, têm dificuldade em relatar os sintomas físicos e psicológicos, porque sofrem já de défice de memória e não conseguem recordar-se de tudo o que fizeram.

Quando o paciente admite o problema ligado ao álcool é, normalmente, sinal de melhor adesão ao tratamento.

Quais são as consequências, físicas e mentais, da dependência severa do álcool?

Dependem da duração da dependência e das quantidades de álcool ingeridas. As pessoas com dependência severa do álcool podem padecer de:

  • Depressão, ansiedade;

  • Danos cerebrais, com um quadro demencial progressivo;

  • Alucinações;

  • Desnutrição;

  • Insuficiência hepática;

  • Pancreatite crónica ou crises de pancreatite aguda;

  • Insuficiência renal;

  • Gastrites;

  • Ulcera péptica (gástrica ou duodeno);

  • Esofagites;

  • Hepatite alcoólica;

  • Cirrose hepática;

  • Hipertensão;

  • Síndroma de abstinência;

  • Delirium tremens;

  • Síndroma de Wernicke;

  • Síndroma de Korsakov;

  • Tuberculose e pneumonias de origem bacteriana;

  • Nos fumadores, verifica-se maior prevalência de bronquite crónica, de enfisema e de doença pulmonar obstrutiva crónica;

  • Anemia.

O que é a síndroma da abstinência?

É uma consequência da interrupção ou redução súbita do consumo excessivo de álcool. Resulta das alterações que ocorrem no sistema nervoso central pela activação excessiva do sistema neurovegetativo.

Esta síndroma caracteriza-se, fundamentalmente, pela ocorrência de ansiedade, irritabilidade, tremores, suores, náuseas, aumento da pulsação cardíaca, taquicardia, insónia, febre, entre outros sintomas.

Em geral, os primeiros sintomas da abstinência ocorrem durante as 24 horas que se seguem à última bebida ingerida. O pico é atingido entre as 36 e as 48 horas depois e, a partir daí, os sintomas começam a decrescer, acabando, em média, ao final de cerca de cinco dias.

Nas situações mais severas, o indivíduo pode ter convulsões, alucinações e entrar em delirium tremens.

O que é o delirium tremens?

Caracteriza-se por forte agitação, delírios e alucinações extremas (visuais, auditivas e tácteis), sendo também acompanhado de febre e convulsões muito fortes (do tipo da epilepsia). Entre cinco a dez por cento dos alcoólicos que entram no estádio de delirium tremens acabam por falecer.

Como se trata o alcoolismo?

O tipo e a duração do tratamento variam em função do grau de dependência e do estado de saúde geral do doente.

Quanto mais cedo o problema do alcoolismo for diagnosticado, maiores são as probabilidades de sucesso do tratamento e da recuperação.

Alguns casos podem requerer o uso de medicação, sobretudo na fase aguda de abstinência, mas é consensual que, além do tratamento psiquiátrico, há terapêuticas, nomeadamente psicoterapias, que desempenham um papel fundamental no tratamento e na recuperação dos pacientes com sintomas de dependência do álcool.

Em geral, há dois tipos de medicamentos usados para tratar o alcoolismo: os tranquilizantes (benzodiazepina), que são normalmente usados durante os primeiros dias do tratamento e que se destinam a ajudar o doente a passar a fase aguda da abstinência do álcool; e os que se destinam a ajudar o doente a manter-se sóbrio e a evitar recaídas.

A participação em programas de recuperação e em grupos de auto-ajuda também constitui um apoio muito importante para a recuperação e para o bem-estar do alcoólico.

O alcoolismo tem cura?

Ainda não. O alcoolismo trata-se e há medicação que ajuda a prevenir recaídas, mas ainda não foi descoberta uma cura.

Um alcoólico pode manter-se sóbrio por um longo período de tempo, mas isso não significa necessariamente que esteja curado. O risco de recaída mantém-se.

As mulheres grávidas podem beber bebidas alcoólicas?

Não, as mulheres grávidas não devem ingerir bebidas alcoólicas.

O álcool é absorvido pelo organismo do bebé através do sistema circulatório, o que, na prática, significa que o bebé absorve o que a mãe bebe. Se a mulher grávida beber muito ou beber frequentemente, o bebé em gestação está permanentemente sob a influência do álcool.

Quais são as consequências da ingestão de álcool para o feto?

Os hábitos, o grau de dependência e a tolerância da mulher grávida face ao álcool são importantes para determinar os efeitos sobre o bebé.

As consequências podem ser muito graves, pois o álcool pode impedir o normal desenvolvimento do feto, quer retardando o seu crescimento, quer provocando lesões cerebrais e malformações físicas ou orgânicas.

Além disso, os bebés podem nascer com a Síndroma de Alcoolismo Fetal (SAF), isto é, subdesenvolvidos e com peso abaixo do normal.

Em casos mais graves, nascem com malformações físicas e orgânicas, sofrem de perturbações do comportamento (hiperactividade, descoordenação motora, dificuldades de aprendizagem e de linguagem), desenvolvimento emocional retardado e atraso mental.

Estes sintomas podem ser ligeiros, mas também podem ser extremamente graves e prolongarem-se até à idade adulta, sobretudo no que respeita às doenças mentais e do comportamento.